Afiar a goiva no couro sem arredondar o gume
O assentamento no couro é a etapa mais curta e mais mal compreendida do entalhe. Bem feito, mantém a ferramenta cortando por semanas entre idas à pedra. Feito com o cabo levantado alguns graus a mais, arredonda em silêncio justamente o gume que você tenta preservar, e a ferramenta piora quanto mais você insiste.
O que o couro faz de fato
Um gume afiado não é a interseção limpa de dois planos. Sob ampliação ele carrega uma rebarba — uma fita fina de aço dobrada para um lado pela pedra — e uma dispersão de riscos microscópicos deixados pelo abrasivo. Os dois fazem o gume parecer afiado por alguns minutos e depois desabar.
O couro remove a rebarba e pole esses riscos, deixando uma geometria de gume menor e bem mais durável. Quem corta é a pasta; o couro é só um apoio ligeiramente flexível que permite à pasta alcançar o bisel.
A montagem
- Um pedaço plano de couro curtido ao vegetal, uns 60 x 250 mm, colado numa tábua com o lado áspero para cima. O lado áspero segura a pasta; o liso não.
- Uma barra de pasta de polir. Óxido de cromo verde em torno de 0,5 mícron é a escolha padrão e basta para toda ferramenta manual da bancada.
- Para goivas, um segundo couro com perfil curvo. Uma cavilha envolvida em couro, ou uma tira colada num sulco raso feito numa sobra, dá uma superfície que acompanha o interior da curvatura.
Carregue o couro esfregando a barra até a superfície escurecer por igual, depois espalhe a pasta com o polegar. Recarregue quando o couro começar a parecer limpo, não por calendário.
O movimento
Deite o bisel rente ao couro. Não o gume, não as costas da ferramenta — o bisel inteiro, de modo que o calcanhar e o fio toquem a superfície ao mesmo tempo. Depois puxe a ferramenta para trás, com o gume arrastando atrás, ao longo do comprimento do couro.
Sempre com o gume atrás. Empurrar o gume para a frente contra o couro crava e tira uma lasca do couro, que é como a maioria aprende essa regra.
Na goiva, gire a ferramenta enquanto puxa, para que toda a curvatura passe pelo couro numa única passada. Dez a quinze passadas no bisel externo, depois cinco no interno usando o couro curvo, e pare. Assentar é operação de acabamento, e mais não é melhor.
O arredondamento que você não vê
Se o cabo levantar três ou quatro graus durante o movimento, só o extremo do gume toca, e cada passada arredonda mais. A ferramenta parece aceitável por alguns cortes e depois para de raspar.
A verificação: apoie o bisel rente e tente enfiar uma folha de papel por baixo do calcanhar. Se entrar, o ângulo está alto demais.
Saber que funcionou
Três testes, na ordem do quanto informam. O primeiro é visual: olhe o gume de cima sob luz forte. Um gume cansado reflete uma linha branca fina; um afiado não reflete nada, porque não sobrou face plana para capturar a luz.
O segundo é o teste do papel — a ferramenta afiada fatia limpo uma folha segura de leve por um canto, sem rasgar nem enganchar. O terceiro e mais honesto é a própria madeira: uma ferramenta bem assentada tira raspa contínua de topo, que é o corte mais duro do entalhe e o primeiro a falhar quando o gume cansa.
Com que frequência
A cada quinze ou vinte minutos de entalhe, antes de a ferramenta parecer cega. Esse tempo é o truque inteiro. O couro recupera um gume ligeiramente cansado; ele não reconstrói um gume que já ficou realmente cego, e tentar forçar isso é o que manda as pessoas de volta à pedra toda sessão.
Quem assenta no ritmo, e não sob demanda, costuma passar um ano ou mais sem encostar numa pedra.